Como bom bai
ano, acabo de chegar da lavagem do bomfim. Inicia-se assim, digamos, o ciclo de exercícios físicos profanos para perder os quilinhos e também os pecados acumulados.
Tem um anúncio, meio batido, mas que cabe muito bem aqui nesta narrativa. Só se vê na Bahia. A tradição manda o uso do branco, pois Senhor do bomfim, nestas sincréticas bandas também é oxalá, que pede a cor branca. um milhão de pessoas nas ruas em pleno dia útil. Útil é modo de se falar, pois na Bahia, a vida só volta ao normal mesmo após o carnaval. Mas o cortejo é uma profusão de cores, com predominância do branco e preto e branco e vermelho. Explico: o branco e preto é a indumentária misturada com nossa mestiça pele e o vermelho fica por conta dos turistas e baianos, digamos, mais branquinhos. Pois para quem não sabe, o cortejo começa na conceição da praia e termina no alto da colina. E são apenas, apenas oito quilômetros. O cortejo pega fogo, literalmente. Seja pelo calor, seja pela tradição, juntamente com a festa de dois de julho, dos políticos medir forças ( eu vi Jaques Wagner, Valdir pires, geddel, João Henrique, Caetano entre outros) e o povo, sabendo que eles são contumazes frequentadores da procissão, levam seus recadinhos.
Pra mim o dia começou cedo. Acordei, arrumei tudo, roupa branca, que depois foi trocada
Por outra igualmente branca “ofertada” pelo companheiro Otaviano. Seguimos para salvador em dois veículos( Eu, Elci, Marilu, Otaviano, Binho e Helton), que ficaram estacionados no inicio da baixa dos sapateiros. Descemos pelo pelourinho (passamos em frente ao bar de Neuzão, da minissérie ó pai ó!) e pegamos o cortejo ainda no início. Pelo caminho, as mais pitorescas figuras. Pretos velhos saídos diretamente das estórias de Jorge Amado, as bandinhas chupa catarro, gays, parrecos (tradução baiana para bunda) em mínimos shorts, baianas “picando” alfazema e água de cheiro em todo mundo, o Gandhy na sua tradicional batida, carroças enfeitadas, que dizem as más línguas bateu o valor de R$ 400,00 a subida em uma delas, os grupos com camisas diversas. Chamou-me atenção uma faixa, colocada logo após o trapiche barnabé: GEDDEL HENRIQUE, FELIZ R$ 2,20 DE PASSAGEM DE ONIBUS. Outro detalhe que estava em destaque é o novo estádio de pituaçu. Tinha mais faixa com o nome do estádio que do governador ou do santo homenageado.
Fiz o trajeto todo a pé, com manda a tradição. “Quem tem fé, vai a pé”. Outra tradição tão forte quanto à festa são as feijoadas. Encontrei Nilton, companheiro da Prefeitura, que tratou de nos convidar para a que aconteceria na casa dele. Após a longa caminhada, fitas devidamente colocadas no adro da igreja e outra amarrada na mão, três pedidos, participei da missa que estava acontecendo no lado externo da igreja. Interessante ver como as pessoas emocionam-se, a mistura das religiões se processam em meio aquele bem arrumado tumulto. Começamos a descida da colina sagrada em direção a casa de Nilton. Ao longe, ouço aquele velho e conhecido som té tsu gum tê, Tum té Tum pact pact (isso é a onomatopeia do som do Gandhy) e eis que ao olhar para cima do carro do afoxé, avisto o ministro da requebração nacional, Geddel. Meus amigos que cena grotesca, pois o bichinho, sozinho já é feio que dói e ainda por cima, encenando uma coreografia que nada tinha a ver com o som que estava sendo tocado pelo Gandhy, mais lembrando Débora Brasil, nos primórdios do tchan, em seus orgásmicos trejeitos coreográficos. Tava lá, o ministro, agarrado ao ferro do trio, com movimentos de vai-e-vem, mais adequados para o mega sucesso “perereca pra frente, perereca pra trás”.
Confesso que tinha a expectativa de ver a Vereadora Leo Kret, freqüentadora da lavagem e portadora de um rebolado digno das sherazades da vida. Estava curioso em saber se ela iria de shortinho ou de terninho para o samba! Mas ver o ministro naquele rebolado, realmente é muito para meus sensíveis olhos. Após a visão, concluo que será ele realmente candidato a governador. Seria bom colocar Carlinhos de Jesus como vice, assim, uma vez vitorioso, tiraria as outras lavagens, o carnaval e as micaretas de letra! Sugestão dada. E de graça, meu bom.
Como ia dizendo, ao avistar o ministro, ia seguindo para a casa de Nilton. Chegamos, comemos deliciosa feijoada ( inaugurei a mesa do dia). Após três deliciosos pratos, seguimos até caminho de areia, procurando um taxi ou ônibus para voltarmos ao início de tudo, eis que o companheiro Otaviano lembra de outra feijoada, desta vez numa churrascaria lá mesmo em caminho de areia. Pra não fazer desfeita ao pessoal do Gandhy, nos instalamos e, pasmem, comemos novamente, exceto Marilu, pois ao ver o tamanho do prato que o marido preparou para ela, debulhou-se em lágrimas com farinha, pois quanto mais tentava conter o derrame, mais passava farinha no rosto. Realmente, esta Bahia é um sucesso. Finalmente, retornamos aos carros num caminhão baú, de carona, pois quem tem fé vai a pé, mas pode voltar motorizado que oxalá perdoa.
E estamos no começo, amanhã tem Guarajuba, depois jauá, ribeira, rio vermelho, monte gordo, rosário dos pretos, santo amaro etc, etc, etc…..
http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1051943 ( veja aqui geddel dançando)